A Autoridade de Conduta Financeira do Reino Unido (FCA) lançou na semana passada uma nova consulta buscando feedback sobre propostas para regulamentar como as empresas de criptomoedas fazem negócios no país. A consulta centra-se em como as empresas que oferecem serviços de criptoativos devem cumprir requisitos relacionados com proteção ao consumidor, padrões de conduta e supervisão regulatória. Ela faz parte do roteiro mais amplo da FCA para o setor de cripto, que visa alinhar o tratamento dos criptoativos mais de perto com os serviços financeiros tradicionais. “Estas propostas continuam o nosso progresso rumo a um mercado de cripto aberto, sustentável e competitivo, no qual as pessoas possam confiar,” disse o regulador. “O Dever do Consumidor estabelece padrões adequados para as empresas de cripto, garantindo que entreguem bons resultados aos clientes enquanto as apoiam a navegar suas vidas financeiras.” A FCA acrescentou que, embora a regulamentação deva apoiar a inovação, ela não pode eliminar todos os riscos associados ao investimento em cripto. “Queremos um mercado onde a inovação possa prosperar, mas onde as pessoas entendam os riscos,” afirmou.
A consulta cobre uma vasta gama de áreas políticas, incluindo obrigações do dever do consumidor, reparação e resolução de disputas, padrões de conduta empresarial, uso de crédito para comprar criptoativos, requisitos de formação e competência para a equipe, e a aplicação do Regime de Gestores Seniores e Certificação. Também aborda relatórios regulatórios, salvaguarda de criptoativos, tratamento de garantias de retalho em empréstimos de cripto, e expectativas sobre onde as empresas de cripto devem estar sediadas para permitir uma supervisão eficaz. O regime regulatório do Reino Unido As propostas enquadram-se num esforço mais amplo das autoridades do Reino Unido para colocar os criptoativos totalmente dentro do perímetro regulatório. No mês passado, o Tesouro propôs uma legislação que colocaria as atividades de criptoativos sob supervisão total da FCA, estendendo o mandato do regulador além do seu foco atual na inscrição para combate à lavagem de dinheiro. Atualmente, as empresas de cripto são obrigadas a registrar-se na FCA principalmente para fins de AML, incluindo diligência devida ao cliente e monitoramento de transações. A Chanceler do Tesouro do Reino Unido, Rachel Reeves, afirmou que a medida fortaleceria a posição global do país. Trazer os criptoativos para o perímetro regulatório é um “passo crucial para garantir a posição do Reino Unido como um centro financeiro líder mundial na era digital,” disse ela. Por outro lado, o Reino Unido também enfrentou críticas por avançar mais lentamente do que outras jurisdições principais na criação de uma estrutura abrangente para cripto.
Figuras da indústria alertam que o timing já pode ser um problema. Tim Meggs, cofundador e CEO da empresa de liquidez de ativos digitais e dados de mercado de Londres LO:TECH, afirmou que o Reino Unido passou anos consultando enquanto os concorrentes agiam de forma mais decisiva. “O Reino Unido gastou sete a oito anos consultando, enquanto outras jurisdições implementaram estruturas e atraíram talentos,” disse Meggs ao Decrypt. “A questão agora é se as regras chegarão a tempo de fazer diferença.” Ele também alertou contra uma formulação fragmentada de políticas. “Mais criticamente, precisamos de uma regulamentação abrangente, não regras pontuais.” Onde a UE avançou decisivamente na política de cripto, o Reino Unido perdeu tempo deliberando, argumentou. “A qualidade importa, mas também o timing. Quando a regulamentação abrangente do Reino Unido chegar, muitos projetos já terão ido para outros lugares,” afirmou. Meggs apontou o Regulamento de Mercados em Cripto-Ativos (MiCA) da União Europeia como um ponto de referência, junto com jurisdições como Cingapura e Portugal. A UE forneceu clareza regulatória, enquanto Cingapura combinou regras com incentivos fiscais e apoio governamental aos desenvolvedores, argumentou, acrescentando que países como Portugal atraíram projetos por meio de um tratamento fiscal favorável, em vez de uma regulamentação mais leve.
A FCA também busca opiniões sobre orientações de política de localização. No setor financeiro tradicional, as empresas geralmente precisam manter escritórios físicos, gestão sênior e controle operacional dentro da jurisdição. Aplicar o mesmo modelo às cripto, disse Meggs, pode ser contraproducente. “Protocolos DeFi são difíceis de localizar. Quem supervisiona o código em redes distribuídas?” ele afirmou, alertando que requisitos rígidos de presença física poderiam levar entidades legais e equipes de desenvolvimento a offshore. Uma abordagem mais eficaz, argumentou Meggs, seria focar na transparência e monitoramento, em vez de requisitos de presença física. Os reguladores poderiam exigir acesso a dados de transações e do mercado, independentemente de onde as empresas estejam incorporadas, ou introduzir incentivos—particularmente fiscais—para encorajar as empresas a manter uma presença no Reino Unido de forma voluntária.
O efeito dominó Desenvolvimentos regulatórios recentes já começaram a afetar os players do setor. No início deste mês, a empresa de pagamentos em cripto Ripple anunciou que recebeu aprovação da FCA para expandir sua plataforma de pagamentos no Reino Unido. O regulador concedeu à empresa tanto a autorização de Registro de Criptoativos quanto a de Instituição de Dinheiro Eletrônico, permitindo que empresas sediadas no Reino Unido usem os serviços da Ripple para pagamentos transfronteiriços envolvendo ativos digitais. “A questão real não é mais a clareza regulatória. É a política fiscal do Reino Unido, do ponto de vista pessoal, corporativo e de cripto,” disse Meggs. Ele argumentou que projetos de cripto priorizariam o lançamento em jurisdições com “melhor tratamento fiscal,” incluindo Portugal, Cingapura e o Oriente Médio. “A política de localização pode exigir presença,” acrescentou, “mas não pode exigir que o Reino Unido seja realmente competitivo.”