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Ultimamente estou notando cada vez mais discussões sobre um fenômeno que não é discutido o suficiente: o debanking. Não é algo novo, mas nos últimos anos tornou-se quase uma prática sistemática, especialmente quando se fala de criptomoedas.
Do que exatamente estamos falando? O debanking é quando uma pessoa ou uma empresa completamente legítima se encontra de repente sem conta bancária, sem aviso prévio, sem explicações detalhadas e sem possibilidade de recurso. Os bancos fecham as contas assim, ponto. Não há investigação preliminar, não há tempo para transferir o dinheiro, não há canal de apelação. É diferente de quando fecham uma conta por suspeitas de atividades ilegais — nesses casos, pelo menos, há um processo, procedimentos. O verdadeiro debanking é mais sorrateiro.
Por que isso deveria nos importar? Porque hoje os serviços bancários são essenciais para operar na sociedade moderna. Perder uma conta significa não poder pagar salários, gerenciar transações, operar normalmente. É como se o governo decidisse cortar a eletricidade de alguém sem explicar o motivo. Existem regras contra discriminação bancária, mas estranhamente elas não protegem contra revogações arbitrárias em outras circunstâncias. E aqui começa o verdadeiro problema: o debanking pode se tornar uma ferramenta para atacar sistematicamente certos setores ou pessoas.
Como chegamos aqui? Em 2013, o Departamento de Justiça americano lançou o que chamavam de "Operação Chokepoint". A ideia era combater atividades de alto risco ou politicamente impopulares, mas o método era interessante: ao invés de agir diretamente, o governo pressionava os bancos para que interrompessem os serviços a certos setores. Em 2014, o presidente da American Bankers Association, Frank Keating, escreveu publicamente: "Os banqueiros não são policiais ou juízes, mas o Departamento de Justiça pede que eles desempenhem esses papéis." A operação foi interrompida em 2015 por pressões legais, mas o modelo permaneceu. Nos últimos anos, fala-se de "Chokepoint 2.0" para descrever práticas semelhantes.
As instituições envolvidas? A Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) enviou cartas aos bancos para suspender atividades relacionadas a ativos de criptomoedas. O Departamento de Justiça, o Office of the Comptroller of the Currency, o Federal Reserve, o Consumer Financial Protection Bureau — todos tiveram um papel. E o fenômeno não é só americano: Canadá e Reino Unido tiveram controvérsias semelhantes.
Mas o que mais me impressiona é o impacto sobre as criptomoedas e a inovação. Segundo o relatório da venture capital a16z, apenas nos últimos quatro anos, suas empresas no portfólio sofreram pelo menos 30 eventos de debanking. Startups legítimas, financiadas por fundos de pensão e fundações universitárias, se viram sem acesso bancário. As razões? "Não atendemos a indústria de criptomoedas", ou "problemas de conformidade" sem explicações específicas. Nenhum recurso.
Esse debanking sistemático está criando diversos efeitos negativos. No sistema financeiro: as atividades se deslocam para canais informais, enfraquecendo a regulamentação. Para os consumidores: limitação dos direitos de escolha e acesso aos serviços. Para a inovação: startups que não podem operar normalmente, alguns riscos de fracasso, um efeito de freio em todo o ecossistema.
O que deveria acontecer? É preciso mais transparência por parte das autoridades reguladoras, mecanismos de recurso transparentes para quem for afetado, bancos que desenvolvam capacidades de gestão de risco mais sofisticadas ao invés de recusas uniformes, e mais pessoas compartilhando esses casos publicamente.
Em essência, o debanking representa um abuso de poder que ameaça tanto o sistema financeiro quanto a inovação. Governo, bancos e sociedade precisam encontrar um equilíbrio entre segurança financeira e competição leal. Caso contrário, corremos o risco de sufocar setores inteiros por medo.