Hashrate Index:Análise da situação atual da mineração de Bitcoin na América Latina em 2026

Autor: Hashrate Index

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A América Latina possui reservas de energia que podem torná-la uma potência global na mineração de Bitcoin, mas atualmente esse objetivo ainda não foi alcançado.

A América Latina possui os recursos de energia renovável mais abundantes do planeta: o sistema de barragens hidrelétricas do rio Paraná no Brasil, a bacia de xisto de Bakamuyerta na Argentina, a bacia do rio Caroní na Venezuela, a usina de Itaipu no Paraguai, além de reservatórios geotérmicos em vulcões na América Central. Diversos países da região têm tarifas industriais de energia que podem rivalizar com as jurisdições de mineração de menor custo do mundo.

Apesar disso, a participação da América Latina na hash rate global de Bitcoin é de apenas cerca de 5-6%. E apenas os Estados Unidos (de acordo com o mapa de calor de hash global da Luxor) contribuem com 37,4%.

A discrepância entre potencial energético e o estado atual da mineração constitui a linha mestra do desenvolvimento da mineração de Bitcoin na América Latina. Este artigo irá analisar profundamente essa situação, detalhando as vantagens centrais de cada mercado, obstáculos estruturais e as condições prévias necessárias para liberar o potencial de crescimento.

Pontos principais

Paraguai é o único mercado de Bitcoin na América Latina que atingiu um padrão de nível mundial. Até o segundo trimestre de 2026, sua hash rate total é de aproximadamente 43EH/s, representando 4,3% do total global, ocupando a quarta posição mundial — esse feito vem de um país interior com apenas 7 milhões de habitantes. Isso é possível graças ao excedente estrutural de energia hidrelétrica da usina de Itaipu, que reduz a tarifa industrial para cerca de 0,037–0,050 dólares por kWh.

O Brasil está emergindo como um verdadeiro competidor. Sua hash rate cresceu +133% em relação ao ano anterior, atingindo 3,5EH/s. A abertura do mercado livre de energia (ACL) em 2024, permitindo que grandes consumidores entrem no mercado, indica que esse crescimento é resultado de investimentos em infraestrutura, e não de arbitragem. A resposta definitiva será dada no terceiro trimestre de 2026.

A Bolívia registrou um aumento de até +2.400% na hash rate ano a ano, essencialmente uma arbitragem política baseada em subsídios de preços de gás natural. Cerca de 70% da rede elétrica do país depende de gás, com preços de fornecimento de apenas 1,30 dólares por MMBTU, enquanto o mercado internacional varia entre 8 e 12 dólares por MMBTU. Essa subsídio tem validade de 2 a 5 anos.

A Argentina possui recursos energéticos quase incomparáveis na lista, mas sua hash rate caiu 42% em relação ao ano anterior. Bakamuyerta é um ativo de nível mundial, e a YPF já está usando gás associado para mineração de Bitcoin. A desregulamentação energética em Milay pode mudar o cenário. No entanto, os fatores macroeconômicos ainda não conseguiram compensar as oscilações de curto prazo — a grande queda nos dados é principalmente devido à estratégia de ajuste de uma única operadora líder: a Bitfarms (agora renomeada Keel Infrastructure) fechou sua mina de 40MW na Argentina.

A Venezuela tem uma hash rate de cerca de 5EH/s, com aproximadamente 10GW de energia hidrelétrica ociosa, 36GW de capacidade instalada, além de emissões de gás associado na bacia de Orinoco, no cinturão de Maracaibo e nas regiões de Monagas e Anzoátegui, que equivalem a cerca de 300 mil barris de petróleo por dia. Recentemente, a licença geral do OFAC, GL 48A, autoriza empresas americanas a gerar, distribuir, armazenar e vender energia na Venezuela. Mineração off-grid pode se tornar uma porta de entrada para mineradores estrangeiros testarem o mercado venezuelano.

El Salvador possui uma hash rate de 1,1EH/s, com uma capacidade instalada de 2,2GW na rede elétrica, e sua capacidade geotérmica pode aumentar em até 400MW. Através do projeto público-privado “Energia Vulcânica” em parceria com a Tether, o país se tornou um pioneiro na narrativa de mineração.

A lição do ciclo de baixa global até o segundo trimestre de 2026: a compressão dos preços de hash (hashprice) consegue distinguir um mercado de mineração duradouro de atividades de arbitragem. Paraguai permaneceu, Bolívia recuou, Brasil acelerou sua expansão. Essa é uma espécie de diagnóstico.

Configuração global

Até o segundo trimestre de 2026, a hash rate global de Bitcoin caiu para 1.004EH/s, uma redução de 5,8% em relação ao primeiro trimestre, que tinha 1.066EH/s. A causa direta foi a queda do preço do Bitcoin, de cerca de 124 mil dólares em outubro de 2025 para aproximadamente 65 mil dólares em fevereiro de 2026, levando o preço de hash a um mínimo histórico de cerca de 27,89 dólares por PH/s por dia. Aproximadamente 252EH/s de equipamentos antigos (com eficiência energética acima de 25J/TH) foram desligados por não conseguirem cobrir os custos operacionais.

Na ponta do ranking de hash rate, como sempre: EUA com 37,4%, Rússia com 16,9% e China com 12,0%. Esses três países controlam cerca de 65% do hash global.

Logo atrás, está o Paraguai, na quarta posição, com 4,3% do hash global (cerca de 43EH/s) — uma pequena nação interior com 7 milhões de habitantes, que, junto com EUA, Rússia e China, figura entre as principais jurisdições de mineração de Bitcoin no mundo.

Os demais países da América Latina — Brasil, Bolívia, Argentina, Venezuela, El Salvador e outros — representam cerca de 1-2% do hash global. Compreender as razões disso, e se esse padrão mudará, é o foco do restante deste artigo.

Comparativo de hash rate por país na América Latina

Fonte de dados: Mapa de calor de hash global da Hashrate Index, segundo trimestre de 2026. Os valores de EH/s incluem incertezas inerentes à metodologia de atribuição de hash.

Paraguai: Como se tornar o quarto maior país de mineração do mundo

Para entender por que o Paraguai ocupa a quarta posição global em mineração de Bitcoin, basta considerar um número: 3.480MW.

Esse é aproximadamente o excedente de energia gerado pelas hidrelétricas do Paraguai em relação ao consumo real do país, de cerca de 7 milhões de habitantes. Em dezembro de 2025, a demanda máxima interna foi de 5.280MW, com capacidade instalada de aproximadamente 8.760MW. A diferença é um excedente de energia quase sem custo (devido ao amortecimento de antigas barragens), que precisa de destino. Essa sobra é a razão fundamental do Paraguai ser um centro de mineração de Bitcoin.

A usina de Itaipu, na bacia do rio Paraná, é o motor principal. Com uma capacidade instalada de 14.000MW, possui 20 turbinas Francis, sendo uma das maiores usinas do mundo. Segundo o tratado, o Paraguai tem direito a 50% da produção, ou seja, 7.000MW. Essa usina atende cerca de 86,3% da demanda elétrica do Paraguai. A usina binacional de Yacyretá, construída em parceria com a Argentina, fornece mais 1.600MW ao lado paraguaio, enquanto a usina de Acaray, de propriedade exclusiva do Paraguai, acrescenta 210MW.

O Paraguai não consegue consumir toda essa energia internamente. Historicamente, vende o excedente para o Brasil a preços abaixo do mercado, com base no tratado de Itaipu de 1973. Essa estrutura de contrato é a principal razão para as tarifas industriais extremamente baixas no Paraguai. A tarifa para grandes consumidores industriais (categoria GCIE, incluindo siderurgia, data centers e mineração de Bitcoin) na rede de 220kV é de US$ 5,27 por kW/mês, e o custo de energia é de US$ 0,03725 por kWh. Em alta utilização, o custo total fica entre US$ 0,040 e US$ 0,050 por kWh — uma das tarifas industriais mais baixas do mundo.

Essa tarifa não é uma subsídio tradicional, mas reflete a realidade de ativos hidrelétricos totalmente amortizados, com custos marginais quase zero, garantindo uma economia de produção de longo prazo muito mais sólida do que os subsídios de gás na Bolívia.

Dados de hash rate confirmam isso. Mesmo em um cenário de contração global e preços de hash em mínimos históricos, o Paraguai cresceu +54% em relação ao ano anterior. Usinas de energia de base de baixo custo operam minas que permanecem lucrativas mesmo com equipamentos antigos operando a custos mais altos.

O país também está atraindo investimentos em centros de dados de IA. A X8 Cloud USA assinou um memorando de entendimento com a ANDE para construir um complexo de centros de dados de IA com até 500MW de energia — equivalente a uma unidade completa de Itaipu. A ANDE investiu recorde de US$ 349,2 milhões em infraestrutura de rede em 2025, e planeja expandir a rede de 500kV com seis novas linhas até 2030, conforme o plano estratégico 2021–2030.

Clientes da Luxor no mercado confirmam a alta especialização dos operadores locais. A Penguin Group, com sede em Assunção, construiu o primeiro grande parque de mineração de Bitcoin e centros de IA no Paraguai, próximo a Hernandarias, defendendo a mineração como uma indústria estratégica nacional. A Alps Blockchain, operadora italiana, desenvolveu nove minas totalmente alimentadas por energia hidrelétrica de Itaipu desde 2022, com investimentos superiores a € 145 milhões, operando mais de 250MW de hash em seis países. Ambos são operadores institucionais de longo prazo, exemplos de entidades que sustentam a estabilidade da hash rate mesmo em ciclos de baixa.

O maior operador individual na América Latina é a HIVE Digital Technologies (NASDAQ: HIVE). Em janeiro de 2025, a HIVE adquiriu os negócios de mineração do Paraguai da Bitfarms, expandindo sua operação Yguazu para 300MW de hash renovável, e está em fase de implementação de uma terceira fase de 100MW, prevista para o terceiro trimestre de 2026, elevando sua capacidade total no país para 400MW, tornando-se o maior centro de mineração do Paraguai. A hash rate global da HIVE cresceu de 6EH/s no início de 2025 para 25EH/s em novembro de 2025, sendo o Paraguai o núcleo dessa expansão. A HIVE é uma forte evidência de que o capital institucional pode fluir para a América Latina quando o ambiente energético e regulatório for favorável.

O único risco estrutural relevante é a renegociação do tratado de Itaipu. O anexo C do tratado regula a compensação pelo excedente de energia, e seus preços historicamente estão abaixo do mercado. Uma renegociação dessa fórmula de preços pode abalar a base econômica que sustenta as tarifas industriais do Paraguai. Empresas mineradoras que planejam investimentos de 5 a 10 anos devem monitorar essa variável com prioridade.

Brasil: o mercado mais promissor

O crescimento da hash rate no Brasil é uma das maiores provas de potencial: de 1,5EH/s para 3,5EH/s em um ano, um aumento de +133%, mesmo durante um ciclo de baixa global. Operadores que buscam arbitragem de curto prazo não investiriam em infraestrutura nesse período de declínio — eles prefeririam sair do mercado.

O Brasil possui uma infraestrutura de energia que suporta mineração em larga escala. Em 2023, o sistema elétrico nacional (SIN) gerou 708,1 TWh, e em 2024 a capacidade instalada atingiu cerca de 2.320 GW. A matriz energética é altamente favorável: Itaipu (14.000MW, em parceria com o Paraguai), Belo Monte (11.233MW, no Pará, conectado por linhas HVDC de 2.518 km até São Paulo), Tucuruí (8.370MW), além de 19,6GW de energia eólica distribuída em 693 usinas. Na maior parte dos dias, mais de 88–90% da energia do Brasil é renovável.

As tarifas variam por região. No Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná), a tarifa industrial é de aproximadamente R$ 652/MWh (cerca de US$ 0,046 por kWh); a média nacional é de R$ 694/MWh (cerca de US$ 0,049 por kWh). Embora não tão baixas quanto no Paraguai, estão na faixa intermediária entre os principais centros de mineração do mundo.

Para os mineradores de Bitcoin, uma mudança importante ocorreu: em 2024, o mercado livre de energia (ACL) foi aberto a todos os grandes consumidores de alta tensão. Isso permite que mineradores e outros grandes consumidores negociem contratos bilaterais diretamente com geradores, podendo evitar tarifas de distribuidoras e riscos de sobretaxas, além de fixar preços de energia por períodos contratuais.

Operadores já estabelecidos no Brasil apontam oportunidades mais amplas. A mineradora brasileira Minter Digital, focada em operações remotas, combina mineração de Bitcoin com infraestrutura energética local, criando empregos tecnológicos em regiões afastadas do sudeste industrializado, e promovendo o desenvolvimento humano. A lógica é que o excedente de energia renovável no Brasil não precisa ficar restrito às regiões de maior demanda — pode ser aproveitado localmente, com melhorias na transmissão ao longo do tempo.

Por outro lado, há um desafio geográfico: a expansão de energia renovável no Brasil está muito à frente da capacidade de transmissão. Em 2024, 1.445 usinas de energia renovável sofreram restrições de energia, com cerca de 400 mil horas de interrupções forçadas. Desde 2021, mais de 9,5 milhões de MWh de energia eólica no Nordeste foi desperdiçada por falta de linhas de transmissão. A região sul, por sua vez, evita esse problema — atualmente, a melhor opção para mineração de Bitcoin no Brasil é o Sul.

Bolívia: uma corrida contra o tempo na disputa energética

A história da mineração de Bitcoin na Bolívia mostra claramente o que acontece quando energia barata é apenas uma decisão política, e não uma estrutura de longo prazo.

Cerca de 70% da rede elétrica depende de gás natural. As três usinas principais da ENDE Andina — Trerreios (526,77MW), Sur (505,83MW) e Valles (527,41MW) — compõem a espinha dorsal do sistema. O gás é fornecido pela YPFB a aproximadamente US$ 1,30 por MMBTU, enquanto o mercado internacional varia entre US$ 8 e US$ 12 por MMBTU.

Essa diferença de US$ 6–10 por MMBTU é a origem do baixo custo de energia industrial na Bolívia, e provavelmente explica o aumento de +2.400% na hash rate em 2026, uma arbitragem racional. Mas essa vantagem tem prazo de validade.

As reservas de gás da Bolívia estão se esgotando. O consumo anual de gás dos usinos térmicos é de cerca de 1,5 bilhões de metros cúbicos. Nos próximos 2 a 5 anos, o país se tornará importador líquido de gás. Com base nos preços de mercado, o custo anual de importação pode aumentar cerca de US$ 400 milhões, reduzindo o lucro total de ENDE em aproximadamente US$ 160 milhões por ano. Em 2º trimestre de 2026, já se observa uma redução na hash rate da Bolívia, embora os números de destaque ainda pareçam positivos — operadores que consideram os fundamentos já incorporaram o fim dos subsídios na precificação.

A verdadeira oportunidade sustentável na Bolívia não depende de energia térmica. Ela está próxima de ativos renováveis que não carregam risco de subsídio: o sistema de barragens de Cobee (10 turbinas Pelton, total 188MW), a usina solar de Uyuni (acima de 3.700 metros de altitude, 62,5MW), o parque eólico de Santa Cruz (108MW, com 30 turbinas Vestas de 3,6MW). Além disso, há um projeto geotérmico de 100MW no Lago Colora, que pode se tornar uma fonte de energia de base de baixo custo. Mineradoras que apostarem nesses recursos podem sobreviver à saída dos subsídios de gás natural.

Argentina: um mercado de energia com ativos de alta qualidade e reformas em andamento

Até o segundo trimestre de 2026, a hash rate da Argentina caiu 42% em relação ao ano anterior. Mas isso não se deve à falta de energia para mineração.

A rede SADI da Argentina tem cerca de 43,35GW de capacidade instalada. Sua faixa de vento na Patagônia é uma das mais produtivas do mundo. A infraestrutura hidrelétrica inclui a usina de Yacyretá (em parceria com o Paraguai, com 3.100MW), a de Pedernera del Águila (1.400MW) e a de El Chocón (1.260MW). Além disso, há Bakamuyerta, uma das maiores formações de xisto de gás não convencional do mundo. A YPF já está operando um projeto piloto de mineração de Bitcoin usando gás associado, transformando gás que antes seria queimado em receita valiosa. Essa estratégia é semelhante ao modelo da Crusoe Energy nos Estados Unidos, que captura gás de xisto para mineração.

A Unblock Computos (filial argentina da Unblock Global) demonstrou a viabilidade do uso de gás associado. Em 2023, a empresa levantou US$ 15 milhões, colaborando com Crusoe, Pampa Energia e Petrocuyo, implantando operações de mineração de Bitcoin diretamente em poços de Bakamuyerta. A empresa se posiciona como a segunda maior mineradora de Bitcoin com gás associado no mundo. O embaixador dos EUA na Argentina elogiou publicamente o projeto como uma forma eficiente de queimar metano, gerar energia e ajudar a Argentina a atingir suas metas climáticas. A infraestrutura está operacional, e a fonte de energia foi validada. O obstáculo macroeconômico é a escala de expansão.

A queda de 42% na hash rate não tem relação direta com esses fatores. A principal causa foi o fechamento da mina de 40MW da Bitfarms (agora Keel Infrastructure) na Argentina, uma decisão de operação que reduziu significativamente a capacidade reportada. A Bitfarms, uma das maiores operadoras do país, decidiu focar em IA, saindo da mineração de Bitcoin, o que impactou a hash rate do país. Assim, a redução de 42% deve ser entendida mais como uma saída de capacidade específica do que uma crise geral do setor.

As leis 450, 451 e 452/2025, promulgadas pelo governo de Milay, representam uma das maiores reformas do setor energético na Argentina desde os anos 1990. Elas promovem a mudança para preços marginais, reduzem o papel de intermediários da CAMMESA e criam um marco para contratos bilaterais entre geradores e grandes consumidores industriais (incluindo mineradoras de Bitcoin que operem em dólares). Se a estabilidade macroeconômica for mantida até 2026, os exemplos de Bakamuyerta, YPF e contratos bilaterais podem reverter a tendência de queda da hash rate. A energia já está disponível. O fator de incerteza é a confiança macroeconômica.

Venezuela: a maior oportunidade ainda por explorar

A Venezuela apresenta cerca de 5EH/s na sua hash rate, indicando que, apesar das condições desafiadoras, há operações de mineração ativas. Esse número ainda não a coloca entre as dez maiores do mundo, mas mostra que há caminhos operacionais sob o ambiente atual.

O país possui uma combinação única de energia ociosa e um quadro de licenças OFAC já aberto. A rede elétrica tem uma capacidade nominal de mais de 34GW, mas a capacidade real de despacho é de cerca de 12 a 14GW. Com perdas de transmissão de aproximadamente 30% e perdas de distribuição de 40%, cerca de 42MW de cada 100MW gerados na usina de Guri chegam ao consumidor final. A restrição de transmissão na bacia do Caroní cria uma oportunidade: há cerca de 16GW de potencial hidrelétrico na região, mas a linha de transmissão de 765kV só consegue transportar cerca de 8,5GW. Essa lacuna de aproximadamente 7,5GW representa energia gerada, mas não entregue ao consumidor. Minerar próximo às usinas pode capturar essa energia antes que ela seja perdida na transmissão.

No lado do gás, o petróleo de Orinoco, o cinturão de Maracaibo e os campos de Monagas e Anzoátegui produzem, diariamente, gás associado equivalente a cerca de 300 mil barris de petróleo. Usinas modulares de gás, combinadas com mineração de Bitcoin, podem transformar esse gás em receita de moeda forte, sem necessidade de infraestrutura de rede elétrica. Essa estratégia é semelhante ao que a YPF faz em Bakamuyerta.

A DoctorMiner, fundada em 2016 em Caracas, foi uma das maiores mineradoras de Bitcoin na Venezuela e pioneira na criação do primeiro pool de mineração do país. A partir de uma equipe de duas pessoas, cresceu para uma rede com mais de 1.500 mineradoras, demonstrando que, mesmo em uma economia quase colapsada, a mineração de Bitcoin pode gerar receita em moeda forte com custos quase nulos de energia. Os fundadores destacam que os recursos de petróleo, gás e água da Venezuela oferecem uma vantagem estrutural para mineração industrial, uma vez que a regulamentação permitir.

A regulamentação avançou mais do que muitos imaginam. As licenças gerais do OFAC, GL 48A e 49A, autorizam empresas americanas a atuar no setor energético venezuelano. Siemens e GE receberam licenças específicas para manutenção de redes. Fundos de investimento dos EUA, como Arc Energy, estão negociando para reabilitar a usina de Tocoma, com capacidade de 2.160MW, avaliada em cerca de US$ 8,9 bilhões, que nunca foi concluída. O modelo de entrada de capital privado na Venezuela, sob autorização do OFAC, já existe e pode ser aproveitado por mineradoras de Bitcoin.

El Salvador: pioneiro na “conceituação”

El Salvador ocupa uma posição única na história da mineração de Bitcoin: em setembro de 2021, tornou-se o primeiro país a adotar o Bitcoin como moeda legal, e opera a única usina geotérmica de mineração de Bitcoin liderada pelo governo, a LaGeo. Quando o presidente Bukele anunciou, em 2021, o projeto público-privado “Energia Vulcânica” em parceria com a Tether, foi uma das histórias mais divulgadas na área.

Porém, o país não possui um mercado de mineração de Bitcoin competitivo.

Com uma população de 6,5 milhões, sua capacidade instalada é de aproximadamente 2.200MW, sem excedente estrutural de energia. As tarifas industriais estão em torno de US$ 0,20 por kWh, cerca de quatro vezes maiores que no Paraguai. A confiabilidade da rede elétrica é baixa: cada cliente sofre, em média, 13,7 interrupções por ano, totalizando 18,2 horas de queda de energia anual. O “Bitcoin Law” também já sofreu retrocessos: em 2024, o FMI exigiu que El Salvador tornasse voluntária a aceitação de Bitcoin pelos comerciantes, ao invés de obrigatória.

O argumento de longo prazo é a expansão da energia geotérmica. LaGeo opera cerca de 204MW em duas usinas em Ahuachapán e Berlín. A área de Chinchontepec está sendo explorada com apoio do Banco Mundial, com meta de ampliar a capacidade geotérmica para mais de 400MW. Com essa escala, o custo de geração de energia geotérmica ficaria entre US$ 0,03 e US$ 0,06 por kWh, com fornecimento de base 24/7 e sem risco de preços de combustível. Se a exploração de Chinchontepec for bem-sucedida, El Salvador poderá ter condições de mineração de Bitcoin competitivas.

El Salvador criou a narrativa de “mineração vulcânica”. Paraguai construiu uma hash rate real. A diferença entre esses dois cenários é medida em megawatts e tarifas de energia.

Dados comparativos

Tarifas industriais na América Latina

Atitudes regulatórias em relação à mineração de Bitcoin na América Latina

Comparativo de hash rate por país na América Latina, segundo trimestre de 2026

Conclusão

A América Latina contribui com cerca de 5–6% da hash rate global, enquanto os EUA respondem por 37,4%. Essa diferença significativa não se deve à falta de recursos energéticos, mas à descoordenação entre mecanismos econômicos e políticas públicas.

O crescimento do Paraguai oferece um exemplo valioso. Apesar de ser um país pouco considerado, com 21% de sua energia perdida por roubo e perdas técnicas, e uma população menor que muitas grandes cidades americanas, é a quarta maior jurisdição de mineração de Bitcoin do mundo. Sua vantagem vem do excedente estrutural de Itaipu, que reflete tarifas de energia baseadas em custos marginais baixos, além de um ambiente regulatório relativamente estável, sem fricções que corroem lucros.

Outros países não carecem de energia. A Bolívia possui radiação solar na região de Uyuni que rivaliza com o Atacama, a Patagônia argentina é uma das mais ventosas do mundo, e as hidrelétricas do Brasil — Itaipu, Belo Monte, Tucuruí — fornecem energia limpa que supera a maioria dos países em capacidade instalada. A Venezuela tem potencial hidrelétrico na bacia do Caroní, parcialmente construído, aguardando capital estrangeiro e licenças OFAC. O potencial geotérmico de El Salvador, se explorado, será uma das fontes de energia mais baratas do hemisfério ocidental.

O que falta a esses países, com diferentes combinações, é a capacidade de: transportar energia a preços competitivos para operações de mineração, estabelecer estruturas regulatórias estáveis que permitam investimentos de longo prazo, e criar um ambiente macroeconômico que permita operações em dólares de forma previsível.

O ciclo de baixa é a melhor prova de diagnóstico. Quando o preço de hash (hashprice) atinge mínimos históricos, atividades de arbitragem se desmoronam rapidamente, enquanto investimentos duradouros em infraestrutura continuam. A permanência do Paraguai, a retirada da Bolívia e a expansão do Brasil delineiam o futuro do mercado de mineração na América Latina.

Nos próximos 12 a 18 meses, será crucial identificar quais mercados conseguirão atravessar essa linha. As reformas do ACL no Brasil, as leis energéticas na Argentina, as licenças OFAC na Venezuela, e a exploração de Chinchontepec em El Salvador são variáveis ativas. A energia já existe. O trabalho é alinhar políticas e economia a ela.

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