Minha avó. Oitenta e seis anos. Envia uma caixa de maçãs todo outono.


A caixa de madeira foi ela mesma que pregou.
A maçã veio da árvore no quintal. Não é grande, tem buracos de inseto.
Ela embrulha uma a uma com jornal. Enche bem cheia.
O frete é mais caro que as maçãs.
Eu disse, avó, não envie mais, na cidade dá pra comprar de tudo.
Ela disse, as da cidade não são doces.
Envia todo ano. Todo ano não dá pra comer tudo. Metade apodrecia.
No ano passado ela caiu. Tremeu a mão. Ainda assim enviou.
A caixa de madeira estava torta e torta.
As maçãs eram menos que nos anos anteriores.
Cada uma tinha a casca machucada.
Ela não embrulhou bem.
Eu cortei as partes podres.
Sentado na cozinha, comi uma a uma.
A última. Mordi.
Dentro, uma nota de papel.
“Este ano tremi, não consegui embrulhar bem. No próximo ano, vovó vai embrulhar de novo.”
Este outono está chegando.
Ainda não recebi as maçãs.
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