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Vendendo sapatos até falir, mudando de nome o preço das ações da IA sobe 5 vezes: Allbirds e Wall Street no eterno "jogo de mudança de nome"
Escrevendo: Dora B Sonho, Profundidade TechFlow
Introdução: Uma empresa de calçados ecológicos com valor de mercado que caiu 99%, que, com duas letras “AI”, teve suas ações disparadas 582% em um dia.
Em 15 de abril de 2026, um nome que já quase foi esquecido no Vale do Silício voltou a aparecer nos trending topics da bolsa de Nova York.
Allbirds, aquela marca de tênis de lã que um dia fez programadores do Vale do Silício usarem um par atrás do outro, anunciou que abandonou completamente o fabricação de calçados, e está se transformando em uma empresa de infraestrutura de poder de processamento de IA. O novo nome é “NewBird AI”, e o negócio é comprar GPUs, construir data centers, fazer aluguel de capacidade de processamento.
Assim que a notícia saiu, o preço das ações da BIRD saiu de US$ 2,49 no fechamento do dia anterior, atingiu um pico de US$ 24,31 durante o pregão, e fechou em torno de US$ 17, um aumento de 582% em um único dia. O valor de mercado saltou de US$ 21 milhões para quase US$ 160 milhões.
De uma empresa de calçados, a uma de capacidade de processamento, o valor de mercado quase quadruplicou em um dia.
Essa cena não parece familiar?
De 4 bilhões para 39 milhões: a queda do queridinho do Vale do Silício
A história começa lá do começo.
Em 2015, o ex-jogador de futebol da Nova Zelândia Tim Brown e o especialista em materiais renováveis Joey Zwillinger fundaram a Allbirds em São Francisco. O diferencial deles era simples: usar lã de ovelha merino para fazer tênis, confortáveis, ecológicos, minimalistas. Esses tênis rapidamente se tornaram o “uniforme” do Vale do Silício, usados por Obama, pelo Leonardo DiCaprio, e quase todos os investidores de risco na Sand Hill Road tinham pelo menos um par.
Em novembro de 2021, a Allbirds abriu capital na Nasdaq, atingindo um valor de mercado de mais de US$ 4 bilhões. Na época, ESG ainda era uma política correta na Wall Street, “moda sustentável” era a narrativa de consumo mais sexy, e os investidores acreditavam que essa empresa poderia ser o próximo Nike.
Mas a bolha estourou mais rápido do que se imaginava.
Nos quatro anos seguintes, a receita da Allbirds caiu de US$ 298 milhões para US$ 152 milhões. Os concorrentes começaram a surgir em massa, o custo de aquisição de clientes subiu, e as lojas físicas foram fechando uma a uma. Em janeiro de 2026, a empresa anunciou o fechamento de todas as lojas de preço cheio nos EUA. Em 30 de março de 2026, a Allbirds vendeu sua marca, propriedade intelectual e todos os ativos de calçados por US$ 39 milhões para o American Exchange Group.
US$ 39 milhões, que é menos do que o valor arrecadado na IPO. Uma queda de 99% em menos de cinco anos, de 40 bilhões para 39 milhões.
Depois de vender os tênis, o que sobra da Allbirds? Uma casca na Nasdaq, um código de ações BIRD, alguns acionistas, e um CEO, Joe Vernachio, que precisa contar uma nova história para o mercado.
Vernachio é um veterano do varejo tradicional, trabalhou na Nike, Patagonia, The North Face, entrou na Allbirds como COO em 2021, e assumiu como CEO em 2024. Seu currículo não tem nenhuma experiência com IA, GPUs ou data centers.
Mas isso não importa. Em 2026, na Wall Street, você não precisa entender de IA, basta dizer essas duas letras que alguém vai comprar a sua história.
NewBird AI: US$ 50 milhões para comprar GPUs
Em 15 de abril, a Allbirds anunciou: a empresa mudará de nome para NewBird AI, posicionando-se como “GPU-as-a-Service” e “provedora de soluções nativas de nuvem para IA”. A companhia conseguiu uma rodada de financiamento conversível de US$ 50 milhões, de um investidor institucional não identificado, que será usado para comprar hardware de GPU de alto desempenho, e alugá-lo por longo prazo para desenvolvedores e empresas de IA.
Na comunicação oficial, o discurso é bem profissional: “O ciclo de compra de GPUs está se alongando, a taxa de ociosidade de data centers na América do Norte caiu a níveis históricos, e toda a capacidade de processamento prevista para 2026 já foi reservada.” Ou seja, a oferta de capacidade de processamento está escassa, e a NewBird AI quer preencher essa lacuna.
Parece lógico, mas o problema é: a Allbirds não tem nenhuma experiência em IA, operação de data centers, cadeia de suprimentos de GPUs, ou clientes já assinados. O que ela tem é uma casca de empresa listada na bolsa, e 50 milhões de dólares de dinheiro novo.
E esses US$ 50 milhões, o que representam na indústria de infraestrutura de poder de processamento? Uma Nvidia H100 custa entre US$ 25 mil e US$ 40 mil. Com esse dinheiro, dá para comprar entre 1.200 e 2.000 GPUs H100. E a Amazon AWS, Microsoft Azure e Google Cloud controlam juntas cerca de 63% do mercado global de infraestrutura de nuvem.
Uma antiga fabricante de tênis, com pouco mais de mil GPUs, tentando competir com esses três gigantes?
Claro que o anúncio também deixou uma pista: a empresa planeja realizar uma assembleia de acionistas em 18 de maio, para aprovar a mudança de nome e a estratégia de transformação. E há um item na pauta que chama atenção: pede aos acionistas que aprovem a exclusão de uma cláusula do estatuto que diz que a empresa deve operar “em benefício do meio ambiente”.
De “fazer um tênis bom para o planeta” a “vender capacidade de processamento para IA”, até a cláusula de proteção ambiental será alterada. A determinação de se transformar é clara.
“Economia de mudança de nome”: uma história absurda de Wall Street
A Allbirds não é a primeira, e certamente não será a última, a fazer esse tipo de coisa.
Em dezembro de 2017, uma empresa de chá gelado de Long Island, Nova York, chamada Long Island Iced Tea Corp., anunciou que mudaria seu foco estratégico para blockchain, e mudou de nome para Long Blockchain Corp. No mesmo dia, suas ações dispararam quase 500%.
Na prática, essa empresa nunca operou de verdade com blockchain. Dois meses depois, a Nasdaq a tirou da lista. Depois, a SEC investigou, e acabou processando os envolvidos por negociações com informações privilegiadas.
Esse é um exemplo clássico da “economia de mudança de nome” de Wall Street: quando um conceito está em alta, basta colocá-lo no nome da empresa que o valor das ações dispara. Em 2017, a palavra mágica era “Blockchain”, em 2026, é “IA”.
A história da Allbirds tem uma estrutura até parecida com a do Long Blockchain:
Negócio principal fracassado, ativos vendidos por um preço baixo, mantém a casca na bolsa, muda o nome para pegar a onda do momento, e as ações sobem.
A diferença é que, em 2017, era uma operação de picareta, e, em 2026, há uma estratégia mais sofisticada. A Allbirds tem US$ 50 milhões de financiamento conversível como garantia de crédito, um modelo de negócio de “GPU-as-a-Service” que soa bem profissional, e um documento na SEC cheio de jargões do setor.
A embalagem ficou mais refinada, mas o núcleo é o mesmo: usar uma palavra da moda para dar um banho de ouro em uma casca vazia.
De DAT para GPU: narrativa que muda a avaliação
Se você acompanha o mercado de criptomoedas, essa estratégia deve ser familiar.
Em 2025, foi o ano de explosão das “empresas de cofres de ativos digitais” (DAT). Muitas empresas de baixa capitalização, com negócios pouco ativos, anunciaram que estavam incluindo criptomoedas em seus balanços, transformando-se em “empresas de cofres de Bitcoin/Ethereum/Solana”. Até setembro de 2025, pelo menos 200 dessas empresas existiam, com valor de mercado de cerca de US$ 150 bilhões, triplicando em um ano. A estratégia é quase a mesma: ações em baixa, anúncio de compra de criptomoedas, valorização de 300% a 900%, emissão de novas ações em alta, compra de mais tokens, e assim por diante.
Quando o mercado começou a cair, o cenário ficou feio. No segundo semestre de 2025, pelo menos 15 dessas empresas de cofres de Bitcoin tiveram suas ações abaixo do valor patrimonial de seus tokens, e os investidores de varejo perderam cerca de US$ 170 bilhões.
A NewBird AI da Allbirds é, na essência, uma variação do modelo DAT. Troca-se “comprar tokens” por “comprar GPUs”, e “cofre de Bitcoin” por “aluguel de capacidade de processamento”. A lógica de fundo é a mesma: uma casca sem experiência na área, que tenta atrair capital com uma narrativa de moda, e usa esse dinheiro para comprar ativos populares. GPUs são ativos físicos, que não caem 50% de uma hora para outra, mas se desvalorizam, ficam obsoletos, e precisam de energia, refrigeração e manutenção — áreas que a Allbirds nunca tocou.
Cada ciclo de avanço tecnológico gera fenômenos semelhantes.
Em 2000, acrescentaram “.com”; em 2017, “Blockchain”; em 2021, “metaverso”; em 2025, compra de Bitcoin; em 2026, compra de GPUs. A essência humana nunca muda: a ganância por atalhos, o mercado sempre disposto a pagar por uma história convincente.
Com US$ 50 milhões investidos em capacidade de processamento, uma empresa como CoreWeave ou Lambda, que já possui dezenas de milhares de GPUs, nem se mexe. Mas uma marca de tênis de lã, com um anúncio e um novo nome, consegue criar uma valorização de mais de US$ 130 milhões em um dia. Isso acontece na fase final de um mercado em alta, e nunca é um bom sinal.
Lembre-se do fim da Long Blockchain Corp., e o fim da NewBird AI talvez não seja exatamente igual. Mas, quando uma veterana do varejo, com uma casca vazia que acabou de vender todos os seus tênis, diz que vai competir com Amazon e Microsoft na venda de capacidade de processamento, você deve se fazer uma pergunta:
Nesse aumento de 582%, quanto é de fé, e quanto é de bolha?