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Ainda me lembro daquele dia de novembro. Uma queda nos mercados que afetou simultaneamente ações americanas, títulos de Hong Kong, ações chinesas A-share, Bitcoin e até ouro. Não foi o colapso de um único ativo, mas algo mais sistémico. Todos os ativos de risco pareciam pressionados pela mesma mão invisível.
Quando olho para trás naquele evento, a primeira coisa que me chama a atenção foi a velocidade. O Nasdaq 100 perdeu quase 5% desde a máxima intradiária, fechando com uma queda de 2,4%. A Nvidia, que tinha acabado de surpreender positivamente com os resultados trimestrais, terminou no vermelho. Em uma noite, 2 trilhões de dólares evaporaram do mercado. Do outro lado do Pacífico, o Hang Seng caiu 2,3% e o Shanghai Composite despencou abaixo de 3900 pontos.
Mas o verdadeiro desastre foi no mercado de criptomoedas. Bitcoin caiu abaixo de 86.000 dólares, Ethereum abaixo de 2.800, e mais de 245.000 pessoas foram liquidada por 930 milhões de dólares em 24 horas. Desde o pico de outubro em 126.000 dólares, o Bitcoin tinha eliminado todos os ganhos e caído ainda mais. Até o ouro, considerado refúgio seguro, não resistiu.
Mas o que causou essa queda tão violenta nos mercados? A principal culpa é da Federal Reserve. Dois meses antes, todos esperavam cortes de juros em dezembro. Depois, de repente, os responsáveis do Fed mudaram de tom. Inflação que diminui lentamente, mercado de trabalho resiliente, possibilidade de mais aperto. A mensagem era clara: sem cortes em dezembro. Os dados do CME FedWatch confirmaram isso — a probabilidade de um corte caiu de 93,7% para 42,9% em poucas semanas.
Quando o Fed destruiu as expectativas, o mercado passou da festa na discoteca para a terapia intensiva. O foco se concentrou na Nvidia, mas algo interessante aconteceu. Uma boa notícia que não faz subir os preços é o sinal de baixa mais forte. Significa que o mercado já tinha precificado tudo. Michael Burry, o famoso vendedor a descoberto, começou a levantar dúvidas sobre a estrutura de financiamento circular entre Nvidia, OpenAI, Microsoft e Oracle. Disse algo provocador sobre a demanda real ridiculamente baixa.
Goldman Sachs identificou nove fatores por trás dessa queda nos mercados. A recuperação da Nvidia estava esgotada, apesar dos bons resultados. Havia preocupações crescentes com o crédito privado. Os dados de emprego não esclareciam. Bitcoin quebrou a barreira psicológica de 90.000 dólares, puxando tudo para baixo. Os fundos CTA que estavam em posições extremamente longas começaram a vender sistematicamente. Os vendedores a descoberto voltaram à ação. As techs asiáticas não sustentavam o mercado americano. A liquidez evaporou — os spreads bid-ask aumentaram significativamente. E, por fim, o trading passou a ser cada vez mais guiado por ETFs e fundos passivos, em vez dos fundamentos das ações individuais.
Ray Dalio disse uma coisa interessante após aquele evento. Sim, há uma bolha na IA, mas o mercado americano estava apenas a 80% dos níveis de bolha extrema vistos em 1999 ou 1929. Antes que uma bolha estoure, muitas coisas ainda podem subir. Não era o momento de vender tudo em pânico.
Na minha opinião, aquela queda não foi um evento cigno negro repentino, mas uma correção coletiva que revelou um problema estrutural: a liquidez global é frágil. Quando todos os ativos de risco se concentram no mesmo setor — tecnologia e IA — e o trading é dominado por algoritmos e fundos passivos, basta um pequeno gatilho para desencadear uma reação em cadeia. Mais automação no trading significa mais facilidade em formar fugas em uma única direção.
Algo fascinante foi o papel do Bitcoin em tudo isso. Pela primeira vez, as criptomoedas realmente entraram na cadeia global de precificação dos ativos. BTC e ETH não são mais ativos marginais — tornaram-se o termómetro dos ativos de risco mundiais.
Mas o mercado de alta acabou mesmo? Não, acredito que o mercado entrou numa fase de alta volatilidade, onde é preciso recalibrar as expectativas de crescimento e taxas. A IA não acaba amanhã, mas a era de aumentos irracionais terminou. O mercado está passando das expectativas para a realização de lucros. E as criptomoedas, sendo os ativos mais arriscados com maior alavancagem, sofreram a queda mais acentuada, mas muitas vezes são as primeiras a se recuperar.