UPD: a noite de celebração que marca os adolescentes argentinos

Nas últimas semanas, enquanto se aproxima o início do ciclo letivo na maioria das províncias argentinas, cresce a conversa em torno de uma tradição protagonizada pelos adolescentes dos últimos anos do ensino secundário. Trata-se do UPD — Último Primeiro Dia —, um ritual que se tornou notícia recorrente entre especialistas, famílias e instituições educativas. Este fenómeno engloba uma prática tão característica da cultura juvenil argentina quanto complexa nas suas implicações sociais, pois combina elementos de celebração com fatores de risco que preocupam os adultos responsáveis.

O costume consiste em que os estudantes do 5º e 6º ano chegam à escola sem dormir, após passarem a noite anterior numa discoteca ou espaço de festa. O objetivo declarado é marcar simbolicamente a despedida de uma etapa vital. Embora as suas origens remontem a mais de 15 anos atrás em Mendoza e San Juan, hoje o UPD é praticamente universal nos secundários de todo o país, desde CABA até às províncias do interior. A pressão social é inegável: “Vão todos”, “É assim”, “Não quero ficar de fora”, são expressões que os adolescentes repetem ao justificarem a sua participação.

Uma tradição que cresceu desde Mendoza há mais de 15 anos

O que começou como uma costume regional transformou-se num fenómeno nacional. Nas suas origens, o UPD era visto como um rito de passagem, uma forma de marcar o limiar entre a adolescência e a vida adulta. No entanto, com o passar dos anos, a prática foi evoluindo e foram sendo acrescentados componentes que geram preocupação tanto nas famílias como nas equipas diretivas das instituições educativas. O sociólogo e psicanalista Marité Ferrari reflete sobre esta paradoxa: “Estes rituais não garantem a passagem porque cada dia se prolonga mais a convivência com as famílias. É uma paradoxa que os adolescentes tentem marcar um antes e um depois, mas permaneçam sob a órbita do mundo adulto”.

O papel das famílias: da resignação à organização ativa

Face a uma prática que se percebe como inevitável, muitas famílias optaram por passar da resignação à intervenção direta. Em diversos grupos de WhatsApp e reuniões organizadas, pais e mães coordenam-se para tentar minimizar riscos. As medidas que implementam são variadas e progressivamente mais sofisticadas: coordenam visitas antecipadas aos espaços onde se realizarão as festas para revisar protocolos de segurança, estabelecem limites de consumo de bebidas alcoólicas, e desenham sistemas de presença adulta rotativa durante toda a noite.

Alguns grupos mais estruturados chegaram a convocar equipas médicas nos locais, estabelecer sistemas de chamadas para retirar adolescentes que estejam em condições não adequadas, e até reservar salas de “recuperação”. As discussões nas redes de pais exploram desde questões técnicas sobre habilitações e saídas de emergência, até reflexões mais amplas sobre limites, autonomia e responsabilidade partilhada.

Riscos reais: os dados sobre consumo de álcool em adolescentes

Os números disponíveis mostram que o consumo de álcool entre adolescentes é uma realidade generalizada. Segundo o Observatório de Dependências e Consumos Problemáticos da Defensoria do Povo da Província de Buenos Aires, 71,5% dos adolescentes iniciaram o consumo de álcool antes dos 15 anos. Ainda mais preocupante é que 13% dos entrevistados reportaram praticar “binge drinking”, ou seja, consumir grandes quantidades de álcool em períodos muito curtos.

Os especialistas indicam que uma prática comum antes do UPD é a “prévia”: encontros organizados em casas ou praças onde a circulação de bebidas alcoólicas é mais livre, sem regulamentação ou supervisão. Esta fase inicial da festa gera consequências imediatas: alguns adolescentes descompensam-se antes de chegar aos espaços principais, outros vomitam ou perdem a capacidade de se manterem de pé, e vários nem chegam a entrar na discoteca que tanto esperavam. Pais que acompanharam o UPD dos seus filhos, como Marilina e Rodrigo, relatam isso: “Tivemos que chamar ambulâncias para atender a rapazes muito mal-dispostos. É um absurdo que esteja naturalizado”.

Análise especializada: ritual de crescimento ou mecanismo de fuga?

O psicólogo especialista em famílias, Alejandro Schujman, propõe uma interpretação crítica. Para ele, “hoje cresce a solidão dos jovens e a perda do sentido comum. Como adultos, entregámos-lhes o comando de questões complexas e não estão capacitados para gerir de forma saudável esta passagem”. Segundo Schujman, “anestesiar-se ou intoxicar-se durante a noite do UPD não é uma forma saudável de celebrar. A maioria das famílias vive com resignação e preocupação, embora note uma minoria que apoia, o que chamo ‘síndrome do pai descontraído’”.

Por outro lado, a psicanalista Paula Vissani, fundadora de “A Coisa Freudiana”, oferece uma leitura diferente. Segundo ela, “há algo de angústia envolvido neste ritual, na consciência do passar do tempo e da perda. O UPD é um acontecimento ao serviço de atravessar esta passagem, que gera alguma nostalgia”. Vissani enfatiza que o UPD interpela os adultos a envolverem-se ativamente: “É importante que cada família escute atentamente como cada adolescente se relaciona com o UPD. A festa pode funcionar como um rito, mas é preciso pensar se alcança o estatuto simbólico de um ritual no coletivo”.

A psicanalista sublinha que existem outras instâncias institucionais que marcam passagens, como a entrega de diplomas ou atos de graduação, que “sustentam-se institucionalmente e situam claramente a mudança de estado: de alunos a egressos”. Joaquim, estudante de 17 anos de uma escola privada de Palermo, oferece uma perspetiva juvenil diferente: “Eu não preciso de álcool para me divertir. Mas entendo que para muitos serve para se soltarem, sobretudo no UPD”.

Políticas públicas e novas regulamentações para proteger os adolescentes

Perante a dimensão do fenómeno, várias jurisdições educativas adotaram medidas legislativas e protocolares. O Ministério da Educação de Buenos Aires estabeleceu recentemente uma normativa que contabiliza falta aos alunos que cheguem à escola “em condições inadequadas”. A medida visa exercer pressão institucional sobre a participação no UPD sem proibir explicitamente.

Em Mendoza, foi implementado o programa UPD 360, impulsionado pela Direção Geral de Escolas, dirigido a todas as escolas secundárias de gestão estatal e privada. Este programa adota uma abordagem integral baseada em três eixos: acompanhamento prévio com guias para famílias; protocolos de atendimento para estudantes que ingressem com sinais de intoxicação (que serão atendidos e retirados pelos seus pais); e atividades pedagógicas nas aulas para refletir sobre a experiência.

Por sua vez, os espaços de lazer que organizam festas para colégios estabeleceram regulamentos próprios. Estes discotecas encerram os eventos num formato de festa privada, permitindo apenas a entrada de pessoas autorizadas ou que constem em listas. Além disso, reservam explicitamente o direito de admissão e permanência, e estabelecem cláusulas que lhes permitem terminar o evento (tipicamente entre a 1h e as 7h) se detectarem situações comprometidas.

O custo do ritual: uma reflexão sobre responsabilidades partilhadas

Fechar uma discoteca para um evento destas características — incluindo DJ, pessoal de segurança e cobertura médica — custa entre $25.000 e $40.000 por pessoa. Este valor evidencia que os recursos económicos para concretizar o UPD provêm maioritariamente do mundo adulto, o que gera uma paradoxa refletida pelos especialistas: adolescentes que procuram marcar a sua independência, mas cuja celebração depende inteiramente de decisões e financiamento dos seus pais e instituições.

À medida que se aproxima novamente a temporada de início do ciclo letivo, as notícias sobre adolescentes e os seus rituais de transição continuarão a ser tema central de conversa em escolas e lares. O UPD representa um ponto de confluência onde chocam perspetivas sobre autonomia, proteção, responsabilidade e o sentido de celebrar o final de uma etapa. Os adultos perguntam-se quanto é prudente intervir; os adolescentes procuram afirmar-se na sua liberdade; e entre ambos tecem-se histórias de uma geração que tenta encontrar o seu próprio caminho rumo à maturidade.

Ver original
Esta página pode conter conteúdo de terceiros, que é fornecido apenas para fins informativos (não para representações/garantias) e não deve ser considerada como um endosso de suas opiniões pela Gate nem como aconselhamento financeiro ou profissional. Consulte a Isenção de responsabilidade para obter detalhes.
  • Recompensa
  • Comentário
  • Repostar
  • Compartilhar
Comentário
0/400
Sem comentários
  • Marcar