Queda global dos ativos: Hormuz, chips e um feriado na Coreia

Título original: Colapso global de ativos: Golpe de Holomuz, chips e um feriado na Coreia

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Reprodução: Mars Finance

28 de fevereiro, a coalizão EUA-Israel lançou a operação “Fúria Épica” contra o Irã, com mais de 2000 alvos atingidos por ataques aéreos, e o líder supremo Khamenei morreu durante o ataque.

Este foi o maior evento geopolítico no Oriente Médio nas últimas décadas.

O capital global esperou um fim de semana inteiro para verificar uma questão: será que a narrativa de dois anos atrás é verdadeira? O ouro é um ativo resistente em tempos de crise? Bitcoin é ouro digital? A troca de desvalorização é uma verdade ou uma bolha de narrativa?

Os resultados chegaram.

O ouro subiu até 5400 dólares, depois caiu mais de 4% junto com as ações. A prata despencou 8% em um único dia. O Bitcoin caiu inicialmente, depois oscilou, e finalmente voltou ao ponto de partida. O índice do dólar subiu 1,1%.

Teste de resistência da narrativa

Nos últimos dois anos, o universo cripto e macroeconomia popularizaram uma narrativa quase infalível: dívida dos EUA fora de controle, dólar em depreciação prolongada, ouro e BTC como proteção contra a diluição monetária, chamados de “trade de desvalorização”. Em 2025, os dados sustentando essa narrativa pareciam sólidos — ouro subiu mais de 50% no ano, BTC atingiu US$126 mil, o índice do dólar caiu quase 11%, marcando o pior desempenho do primeiro semestre em 50 anos. Ken Griffin, da Citadel, repetia essa palavra em público, e o ETF de BTC da BlackRock quase atingia US$100 bilhões sob gestão.

A hipótese central dessa narrativa é: quando a crise real chegar, as pessoas abandonarão o dólar e buscarão ativos resistentes.

No último fim de semana, essa hipótese enfrentou seu primeiro teste de estresse real.

Na segunda-feira, o ouro inicialmente subiu — o preço do ouro em Londres atingiu US$5418, quase igualando a máxima histórica de final de janeiro. Mas, com o aumento contínuo do preço do petróleo, reavivando expectativas de inflação, e o mercado começando a reavaliar o caminho de redução de juros do Fed, tudo virou de cabeça para baixo. O ouro fechou em queda, na terça-feira caiu mais de 4%, voltando às mínimas desde 20 de fevereiro.

A prata foi ainda pior. Na segunda-feira, ultrapassou US$96, e na terça-feira despencou quase 8% em um dia.

A razão é simples. Aumento do petróleo eleva a inflação esperada, o que reduz o espaço para o Fed cortar juros, o que fortalece o dólar, que por sua vez é o adversário direto do ouro e da prata. Além disso, a venda simultânea de ativos de risco, forçando liquidações, fez com que esses metais, que deveriam subir na hora certa, se tornassem posições mais líquidas e fáceis de serem liquidadas.

Não é a primeira vez. Em 2022, com a guerra Rússia-Ucrânia, o BTC não serviu de refúgio, caindo junto com o Nasdaq; o ouro inicialmente subiu, mas depois foi derrubado por lucros — um roteiro semelhante, mas com maior intensidade.

A situação do BTC é ainda mais delicada. Naquele fim de semana de início da guerra, o mercado cripto foi o único ativo ainda em operação. O BTC caiu de perto de US$66 mil para menos de US$64 mil, mas rapidamente se recuperou antes da abertura dos mercados tradicionais na segunda-feira. À primeira vista, isso parece resistência. Mas a verdade é: fundos institucionais ainda não entraram, e o mercado depende de investidores de varejo e de arbitragem, que buscam direção na oscilação. Na terça-feira, com a queda geral, o BTC voltou a pressionar-se, permanecendo ao redor de US$68 mil, sem mostrar a alta de “ouro digital” que se espera, nem a grande queda de “ativo de risco” — apenas… ali, oscilando.

Holomuz, chips e um feriado na Coreia

A queda na Coreia foi especialmente forte, por uma razão estrutural: na segunda-feira foi o Dia de Três Reis, feriado nacional na Coreia, e as bolsas estavam fechadas.

A ansiedade acumulada no fim de semana não encontrou saída. Na terça-feira, às 9h da manhã, todas as vendas não realizadas durante o feriado caíram de uma só vez. O KOSPI acionou o limite de queda, encerrando o dia com uma queda de 7,24%, destruindo cerca de 3770 bilhões de wons (aproximadamente US$2,57 bilhões).

Este foi o maior declínio diário desde a crise do carry trade do iene em agosto de 2024. Naquela ocasião, o KOSPI caiu 8,77% em um dia, após dados de emprego dos EUA desmoronarem e o Banco do Japão surpreender com aumento de juros, um desencadeamento de uma desanexação sistêmica alavancada. Agora, o gatilho foi a geopolítica — mas por trás há uma corda tensa, de material diferente.

Nos últimos 18 meses, investidores de varejo na Coreia passaram por uma onda épica de FOMO. O KOSPI, de 2400 pontos no final de 2024, atingiu mais de 6000 pontos em fevereiro de 2024, um aumento de quase 150% em 14 meses. Algumas corretoras ajustaram o alvo para 7000 ou até 8000 pontos. O número de contas abertas ultrapassou 100 milhões em janeiro — numa nação de 50 milhões de habitantes, há 100 milhões de contas de ações. O governo coreano chegou a incluir o “KOSPI 5000” na sua agenda de políticas públicas, como meta nacional.

Ao mesmo tempo, o endividamento de margem também crescia. Antes do colapso, o saldo de empréstimos de margem no mercado interno ultrapassava 32 trilhões de won (cerca de US$224 milhões), o maior desde 2021. Os empréstimos garantidos por ações somavam mais 26 trilhões de won, totalizando quase US$370 milhões. O índice de medo do mercado, VKOSPI, já tinha atingido 54 no final de fevereiro, mais do que o dobro do nível normal — enquanto o mercado atingia novas máximas, o medo já estava em níveis extremos.

Essa estrutura, ao sofrer um choque agudo, provoca uma compressão de liquidez à moda de livro-texto.

Queda de ações aciona alertas de margem, corretoras iniciam liquidações forçadas, o que empurra ainda mais os preços para baixo, acionando mais alertas de margem — um ciclo vicioso de reforço. No dia, investidores estrangeiros venderam mais de 517 bilhões de won (cerca de US$35 milhões), a maior venda líquida diária do ano. Os investidores de varejo, por outro lado, aproveitaram a queda para comprar na baixa, aumentando suas posições alavancadas em ETFs, apostando na recuperação.

Outros mercados asiáticos também sofreram. O Nikkei 225 caiu 3%, com Toyota caindo 5,5% e Sony 4,3%. O Hang Seng de Hong Kong caiu 2,1%, liderando as perdas na Ásia-Pacífico. A Bolsa da Tailândia anunciou suspensão de vendas a descoberto na maioria dos títulos. O índice MSCI Ásia-Pacífico caiu cerca de 2%.

Mas a vulnerabilidade estrutural mais crítica está em Seul.

A queda não foi só das ações. Foi do KOSPI, que vinha sendo repetidamente apresentado como o melhor proxy para o “super ciclo de IA”. Samsung Electronics caiu quase 10%, rompendo a barreira psicológica de 200 mil won. SK Hynix caiu 11,5%. Essas duas empresas representam cerca de 40% do valor de mercado do KOSPI e são os principais fornecedores globais de chips de IA — a Samsung é a maior fabricante mundial de DRAM e NAND, a SK Hynix fornece memórias HBM de alta largura de banda, essenciais para GPUs de IA da Nvidia, por exemplo.

Todas essas fábricas estão na Coreia. O país importa diariamente 2,76 milhões de barris de petróleo, principalmente do Golfo Pérsico, via o Estreito de Holomuz.

O Irã já anunciou o fechamento do Estreito, mas recuou. Entretanto, as seguradoras já suspenderam a cobertura de riscos de guerra, e as companhias de navegação pararam de operar. Um bloqueio não oficial, mas efetivo, está em andamento.

Enquanto o mercado entrava em pânico, uma outra notícia passou despercebida: a fábrica de chips da Samsung em Taylor, Texas, adiou novamente sua produção em massa, de 2026 para 2027. Essa fábrica, considerada uma peça-chave na estratégia de “retorno de chips aos EUA”, fica no deserto do Texas — mas ainda depende do petróleo vindo do Golfo Pérsico.

O dólar venceu, e todos perderam

Agora, a conclusão mais desconfortável.

Ao longo de todo o ciclo, uma das narrativas mais predominantes foi a de “desdolarização”. A participação do dólar nas reservas globais caiu abaixo de 47%, os bancos centrais aumentaram recordes de ouro, BRICS criou a plataforma de pagamentos transfronteiriços mBridge, e o volume de stablecoins na blockchain cresceu de US$2,05 bilhões para mais de US$3 bilhões. Quase todos na comunidade estão apostando: a era dourada do dólar acabou, e o próximo ciclo será de multipolaridade, ativos resistentes e descentralização.

Mas, quando a guerra começou, o índice do dólar subiu 1,1%, a maior alta diária desde maio do ano passado.

Naquele dia, houve uma venda simultânea: ações, títulos, ouro, prata, commodities — tudo caiu. O fluxo de capital foi unidirecional: para o dólar.

Essa é a essência da compressão de liquidez. Não é que o dólar tenha ficado melhor, mas que ele é o ativo mais líquido do sistema financeiro global. Em uma crise aguda, quando todos precisam sair ao mesmo tempo, o dólar é a maior porta de saída. Para liquidar posições alavancadas, para reforçar garantias, para fugir de ativos internacionais — tudo passa pelo dólar. Não há outra opção com essa escala.

O Irã deu a essa lógica uma confirmação clara.

O rial iraniano depreciou mais de 30% desde o início do ano. Nobitex, maior exchange de criptomoedas do Irã, processa mais de 87% das transações cripto no país. Após os ataques, em poucos minutos, o volume de saques na Nobitex disparou 700% (dados da Elliptic). A Chainalysis rastreou os fluxos: grande parte do dinheiro saiu do país, sendo transferido para exchanges estrangeiras que aceitam entrada de fundos iranianos, convertendo-se em USDT e USDC.

Em plena crise monetária, o que as pessoas fazem na rede de criptomoedas é fugir para o dólar.

Isso não significa que a troca de desvalorização seja uma narrativa falsa. Os problemas de dívida dos EUA, inflação, a erosão do poder de compra do dólar — esses fatores estruturais continuam reais. A lógica de o ouro superar o desempenho do dólar a longo prazo não foi desmentida por esse teste de estresse.

Porém, essa crise nos mostrou uma coisa: a troca de desvalorização é uma narrativa de variável lenta, que precisa de tempo para se consolidar. Já o impacto geopolítico é uma variável rápida, que só tem um ritmo — o de hoje.

Quando esses dois quadros temporais se encontram, a variável lenta cede espaço.

O dólar venceu. Na próxima crise, provavelmente, ele vencerá novamente. Até que um dia, ele deixe de vencer — mas, nesse dia, provavelmente, não será com um começo tão dramático quanto este.

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